segunda-feira, 3 de abril de 2017

QUERO



"Quero um manto tecido com fios de ouro solar. O sol é uma tensão mágica do silêncio. Na minha viagem aos mistérios ouço a planta carnívora que lamenta tempos imemoriais: e tenho pesadelos obscenos sob ventos doentios."


C. Lispector

domingo, 19 de março de 2017

E porque ela me compreende



Tenho tantas vezes este sonho estranho e penetrante
De uma mulher desconhecida que me ama e eu amo
E que nunca é a mesma nem completamente outra,
mas que como ninguém me ama e compreende.

E porque ela me compreende, só para ela o meu coração é transparente.
Para ela apenas infelizmente! eu deixo de ser um problema
Pois só ela alivia esta pesada dor
com as lágrimas que deixa correr sobre a minha fronte...

Se é loura morena ou ruiva ? eu ignoro.
O seu nome ? só me lembro que ele é doce e sonoro,
Como o dos seres amadas que pela vida de nós são exilados.

O seu olhar é parecido com o olhar das estátuas
E, a sua voz, longínqua e calma, e grave, tem
A inflexão das vozes queridas que se calaram para sempre.

Paul Verlaine


sábado, 23 de abril de 2016

Mergulho em quem não me espera


 


Tenho esse foco de luz libidinal aceso sobre o lugar onde estou a escrever. Os lençóis enrodilharam-se, e ouço a cabeceira da cama batendo, na trepidação com que escrevo sobre o caderno. A imagem que me deixa a mulher que está a escrever é a de um traço amplo e veloz a captar o poema que passa rápido. Impossível dizer-lhe que espere, que não consigo escrever à sua velocidade, que se repita ou volte a dizer (quando, de facto, nada diz) o que estava a dizer. Passa é o seu facto fundamental.

Mergulho em quem não me espera. Ignoro se me vê a escrever, deixo-me inundar de puro luar libidinal. (LLANSOL, 2000, p. 17).

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

OS CAMINHOS MISTURADOS



Depois, vinham os caminhos misturados. A seiva escura já em salmos. A paz que te cantei toda de vento. E todo o saber de que tens merecimento.
Antes, estiveram os vates encostados aos fogos, vestes na fonte enegrecida do Logos.
Esperei sempre por ti no cume das coisas, e, sempre sem ti, fui por entre mim as indistintas outras. Cosas loucas. Vestes nuas. Criaturas. Negras marés. Fontes tantas. Outras chuvas. Rosas. Sóis. O instante. O servo… o medo. Dói.
Sou a dor petrifica
da em todos os lençóis.
Uma chama em gelo, um gelo que queima, um lagar de azeite nas cruentes formas.
Um girassol além, sorrindo na distância de um astro sem nome e, sabendo tudo da minha fome.


AMÉLIA VIEIRA (poeta)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

o humor do amor...

 
 
A CHUVA OBLÍQUA É UM CONVITE À INCLINAÇÃO DO TEU OMBRO

(...)
“Já houve quem comparasse o humor ao amor, e não só por uma questão sonora. O humor do amor é um acontecimento trágico e como o riso resulta do trágico, o amor torna-se uma consequência de o riso ser possível para que possamos chorar no extremo limite de uma alegria trágica, tragicamente humoral, e tragicamente o moral se complique em ...numerosas pregas para aumentar a sua extensão consideravelmente e os pelos que o recobrem poderem dar-lhe uma aparência aveludada. Como um intestino.
E como as ordens dadas ao sistema nervoso são transmitidas em forma de seta, isso explica que nós possamos dilacerar-nos a nós próprios quase invisivelmente.”


In SIGMA
ANA HATHERLY

domingo, 11 de outubro de 2015

As lágrimas precisam queimar o rosto

 
 
O Diário de Annabel Além

- estou presa no fio do abismo, disse ela sorrateiramente… -



Eu, Annabel Além, preciso das minhas lágrimas. Preciso senti-las quentes a percorrerem o rosto. Sentir os lábios ardidos e salgados. Eu preciso das minhas lágrimas. Secá-las no lenço. Preciso chorar a intensidade dos amores, as alegrias das belezas, as dores de saber tudo transitório. Preciso chorar a intensidade da perca, a emoção do encontro. Sou água de lágrima, mar por dentro. Preciso chorar intensamente e rugir selvaticamente. A dor é qualquer coisa indescritível. Nunca saberemos quando a dor de uma Alma ou de um Coração vai embora! Nunca, nunca o saberemos!!
Preciso gritar, ‘’ninguém, nada tem o direito de matar o amor no coração de um ser?! NINGUÉM, NINGUÉM!! ‘‘. Que ardas na fogueira, a sentença que me colocaste sobre o peito. Feriste-me o espírito, velha maldita!! Inutilizaste a ferramenta número 1, a mais poderosa de todas, a que move fundos e mundos; montanhas e céus. Tentaste roubar, invejosa; ousaste sugar, maldita sejas. Separaste e ousaste dizer aquela barbaridade! Disseste, ‘’vai e mata pela tua salvação!’’. Que crueldade te habitou a esse ponto, para instruíres uma criança a praticar tal acto?? Como entrou tudo isso no teu coração? Como tiveste a coragem de vociferar tantos horrores àquela criança?
Eu, Annabel Além, preciso chorar, as lágrimas. As lágrimas precisam queimar o rosto para desfazer-se da visão desse castigo. Preciso de Lágrimas para secar a culpa que não existe e nunca existiu de facto. Na prisão está uma condenada por um crime que não praticou. Não consegue recorrer da sentença e nem provar a inocência. Demasiados juízes têm a criança amarrada. Ela tem 2 anos. Chamo-me Annabel Além.

NãoSouEuéaOutra in '' Diários Compostos de Figuras Humanas sem voz

VERTIGEM DE TI



VOU COLADA À MEMÓRIA DAS ROSAS


"Vou nas Vertigens dos dias, colada e cega às Saias. Esqueço-me  lembrando dos teus lábios, em especial o canto deles. Viro fantasma quando a vontade de te beijar é soberana. Mas tu não sabes que existo em sentimento por ti. Existem Vaginas à solta na sepultura deste coração, cuja forma é de Ouro e suas veias de Prata. Toda Eu Sou Tua, na devassa imensidão desse mundo que não cabe na palma da mão.
Vou colada à Memória das Rosas, dos aromas do Ser Infinito. Tu, tu não sabes que existo em sentimento por ti, e tu cabes na palma da minha mão. Deixa-me abocanhar-te quando de ti me aproximar na próxima encarnação e pela Vertigem da força fazerei todo o Amor possível, lambendo-te à exaustão do sublime."

NãoSouEuéaOutra in ''Curtas e rápidas''
(Cerâmica Jewels)